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Mostrando postagens de maio, 2020

Kintsugi

Os fios dourados vão me tecendo. Os fragmentos, secos e esfarelados, se juntam com as quedas das gotas de mar que o transpassar da agulha provoca. O trabalho, interminável, está feito. Por agora, feito. Olho-me no espelho embaçado do banheiro, não me enxergo. Os olhos repletos de nuvens carregadas anunciam trovoadas. Tiro as pupilas do casulo. Há sol em mim. Tão brilhante, tão reluzente, tão viva, que sinto o sangue correr vibrante pelos fios de ouro que me bordam. Respiro, entendo o meu tamanho. Estou mais reforçada pelas linhas do tempo, pelas histórias que me (re)fazem. Sigo, atenta para não ser incauta. À frente, estranhamente, vejo diferente a mesma estrada. Linhas de ouro me conduzem com mais facilidade pelo caminho que eu imaginava conhecer. Apreendo os instantes.  Experimento os velhos passos.  Me redescubro e me percebo: sou o fio dourado, mas sou também a estrada. Busco me pertencer. Sou minha e do tempo. Tão logo serei só um pó dourado ...

Brotei Bordô

Era manhã, mas a cor de cimento chapiscado fazia doer as vistas e a alma. Havia cinzas caindo tristemente por sobre a lama sangrenta que corria nas vias da cidade apagada: mais um dia pintado de gris e bordô. Portões se abrem: pés atrevidos tocam a calçada. A vista embaçada da rua ainda permite ver a luz amarela piscante do semáforo. Estranhos sons, outrora esquecidos, ecoam por além das brumas e parecem chegar cada vez mais perto, embora eu já os sinta aqui dentro. Um misto de humanidade estrangeira me embala e sensações apagadas se despertam. Meus pés estão molhados. A correnteza castanho-avermelhada começa a me banhar... vidas se coagulam em minha pele e o toque dos meus dedos na gosma grossa segue o ritmo das vozes sussurradas. Sinto um misto de agonia e curiosidade. Ouso dar os primeiros passos. As pernas, pesadas. Respiração acelerada. O coração pulsa sem vírgulas e pontos com medo e com pressa. A manhã anoitece em mim. Ouço pés ansiosos no córrego sangrento. Os vejo: olhos...

Regato

Está frio. Hoje, só por hoje, não li as notícias. Tenho medo de me habituar ao caos. Tento seguir, contudo, meus passos estão letárgicos: o receio do tropeço me intimida. À frente, um buraco. Em mim, a estranheza: um buraco dentro do outro não parece ser a saída, mas o fim. Então, eu paro. E, todo dia, que agora parece ser sempre domingo, às vezes quarta de cinzas, eu hesito. Se sigo, caio, se fico, não vou a lugar algum. Por todos os lados, morte e desespero.   O horizonte utópico está cada vez mais inatingível: até dos meus pensamentos está desaparecendo. Havia um caminho, eu soube um dia, que me levaria para além dos escombros que caíram no meu rio. Agora, sou apenas um regato poluído que está sem saber para onde correr. Perdi as forças e a vontade de ir. Já me agarrei em tudo e em tanto, mas minhas mãos cheias de lama estão se deslizando dos meus braços: não, eu não posso mais me segurar. Se tropeço também é passo, posso dizer que, ainda caindo, estou indo. Mas não sei pa...