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Mostrando postagens de 2020

Kintsugi

Os fios dourados vão me tecendo. Os fragmentos, secos e esfarelados, se juntam com as quedas das gotas de mar que o transpassar da agulha provoca. O trabalho, interminável, está feito. Por agora, feito. Olho-me no espelho embaçado do banheiro, não me enxergo. Os olhos repletos de nuvens carregadas anunciam trovoadas. Tiro as pupilas do casulo. Há sol em mim. Tão brilhante, tão reluzente, tão viva, que sinto o sangue correr vibrante pelos fios de ouro que me bordam. Respiro, entendo o meu tamanho. Estou mais reforçada pelas linhas do tempo, pelas histórias que me (re)fazem. Sigo, atenta para não ser incauta. À frente, estranhamente, vejo diferente a mesma estrada. Linhas de ouro me conduzem com mais facilidade pelo caminho que eu imaginava conhecer. Apreendo os instantes.  Experimento os velhos passos.  Me redescubro e me percebo: sou o fio dourado, mas sou também a estrada. Busco me pertencer. Sou minha e do tempo. Tão logo serei só um pó dourado ...

Brotei Bordô

Era manhã, mas a cor de cimento chapiscado fazia doer as vistas e a alma. Havia cinzas caindo tristemente por sobre a lama sangrenta que corria nas vias da cidade apagada: mais um dia pintado de gris e bordô. Portões se abrem: pés atrevidos tocam a calçada. A vista embaçada da rua ainda permite ver a luz amarela piscante do semáforo. Estranhos sons, outrora esquecidos, ecoam por além das brumas e parecem chegar cada vez mais perto, embora eu já os sinta aqui dentro. Um misto de humanidade estrangeira me embala e sensações apagadas se despertam. Meus pés estão molhados. A correnteza castanho-avermelhada começa a me banhar... vidas se coagulam em minha pele e o toque dos meus dedos na gosma grossa segue o ritmo das vozes sussurradas. Sinto um misto de agonia e curiosidade. Ouso dar os primeiros passos. As pernas, pesadas. Respiração acelerada. O coração pulsa sem vírgulas e pontos com medo e com pressa. A manhã anoitece em mim. Ouço pés ansiosos no córrego sangrento. Os vejo: olhos...

Regato

Está frio. Hoje, só por hoje, não li as notícias. Tenho medo de me habituar ao caos. Tento seguir, contudo, meus passos estão letárgicos: o receio do tropeço me intimida. À frente, um buraco. Em mim, a estranheza: um buraco dentro do outro não parece ser a saída, mas o fim. Então, eu paro. E, todo dia, que agora parece ser sempre domingo, às vezes quarta de cinzas, eu hesito. Se sigo, caio, se fico, não vou a lugar algum. Por todos os lados, morte e desespero.   O horizonte utópico está cada vez mais inatingível: até dos meus pensamentos está desaparecendo. Havia um caminho, eu soube um dia, que me levaria para além dos escombros que caíram no meu rio. Agora, sou apenas um regato poluído que está sem saber para onde correr. Perdi as forças e a vontade de ir. Já me agarrei em tudo e em tanto, mas minhas mãos cheias de lama estão se deslizando dos meus braços: não, eu não posso mais me segurar. Se tropeço também é passo, posso dizer que, ainda caindo, estou indo. Mas não sei pa...

Fragmentos

A mesma música está tocando pela décima vez, assim como meus pensamentos e os gritos do vizinho. Nada é novidade por aqui, exceto as rugas e a dúvida do que soa melhor: assobia ou assovia. Cedi à preferência do Aurélio.   A angústia insistente de uma existência aparentemente vazia e sem sentido, que constitui as tramas da vida humana, há dias me sufoca. Me distraio. Me afasto. Me afogo. Não faz muito tempo e eu conseguia encontrar razão no que hoje não vejo, pelo simples fato de que eu só encontro o que me falta no  outro. É doído estar numa ilha vendo tantos se afogarem. Falta ar. Tem dias que me salvo, em outros, eu só desisto, como hoje. Sem utilidade, trancada, voltada para dentro. Poderia ser um momento grandioso, não fosse a falta: a falta de tantos que me constituem. Sou apenas uma peça de papelão desgastada num quebra-cabeça gigante. Os prazos para o trabalho solitário estão acabando... sem a força que faz minha engrenagem girar, que encontro nas motivações, no...

Indo

Tento dar o próximo passo, mas não encontro o caminho. Na frente, o que ficou para trás: o futuro é um retrovisor quebrado. Nas rachaduras, procuro as respostas, mas quando percebo estou buscando meus próprios olhos, só o vazio me espera. Não há ponte, escada, sorte ou deus . Os gritos ecoam e descem novamente à garganta. O ar some para voltar e se gastar de novo. O buraco esteve sempre ali. Eles não avisam. Um dia, talvez na queda, você descobre, mas é tarde. É preciso conviver com o inevitável. O vento que abraça é o mesmo que suga e o que surge, a cada segundo, é passado contínuo. Machuca não estar nele, mas ainda é mais doloroso não poder seguir para o novo, se é que ele existe. Estou caindo para dentro do meu próprio corpo, ou mente, ou alma, ou consciência, não sei. Para este pedaço inteiro que sou eu. Estou indo, mas não chego. Se tivessem me perguntado, talvez eu não teria escolhido pular. Mas fui empurrada pela estrada que decidiu não me acompanhar. Se eu soubesse, também...

Pausa

O café fresco desce gentil, ao contrário das notícias de mortes, de cortes e do grito neoliberal que ainda ecoa e me sangra os ouvidos. Repito meu mantra diário: tudo passa. Vivenciamos o ápice do fracasso de um sistema com engrenagens enferrujadas, enxergamos com nitidez os abismos de desigualdade e a falta de humanidade. O espírito empreendedor tentou reificar trabalhadores/as e construir uma nova consciência, aliás, impedir o surgimento de uma classe unida, ciente de sua força. No auge da informalidade, do aumento de MEIs, de desregulamentações trabalhistas, de corte de bolsas, de ataque à pesquisa e ao ensino, do aumento da miséria, da poluição, da intensificação e precarização do trabalho, eis que surge a pausa. Não é apenas uma meio de sobrevivência: é para refletirmos, nos enxergamos como gente (que "nasceu pra brilhar e não pra morrer de fome"), resgatarmos afetos, repensarmos o sentido da existência e da necessidade de uma economia que sirva às pessoas em todas a...

Da janela

Há duas vassouras na sacada do prédio vizinho. Não há grades protetoras, nem arame, corda, nada, exceto o suporte que elas dão a si mesmas. Uma confiança aparente parece vibrar em suas cerdas gastas. As nuvens estão cinzentas e carregadas, mas os cabos magros debocham do possível vento, da provável chuva. Daqui, vejo o plástico rasgado que as reveste balançar. Confesso que a brisa me trouxe um cheirinho de medo, ou seria de pavor? Fixo meu olhar, tentando enxergar nas vassouras a fraqueza que imaginei sentir no ar. Não vejo nada. Não enxergo porque não existe. Sinto, porque a insegurança está sim, em algum lugar, mas não é lá, é aqui, em mim. Sou uma vassoura encostada na sacada, tirando a madeira e as cerdas.  Meus pés que se apoiam no chão tremem e escorregam.  Eu tento encaixar as costas, procurando uma posição de conforto e que permita sustentação. Dura pouco. O vento balança meus cabelos e parece me perfurar a pele. Uso as mãos para proteger a vista: do ar cortant...

Grafite

O frio enrijece meus dedos. Ainda assim, o lápis desliza, como se dançasse ao som da chuva que, serena e impassível, me embala nesta manhã. Ao contrário de mim, ele não se incomoda com os olhares de tantos livros, que aqui parecem me enxergar por dentro. Esperam algo deste grafite que se gasta, que segue deslizando, olhando fixamente para o papel, sentindo seu toque, que traz sentido, que o dá sentido. Ao lado, outras vidas nascem e renascem, sabendo que o fim está próximo e cronometrado. Por isso, o lápis corre, ainda que perseguido pelos livros que, agora, o olham com desprezo. Ah!, a esperança. A necessidade de se transpor, o desejo de não morrer rasgado, mas gasto. Disso, o lápis se orgulha. Consegue ser vários, enquanto este papel, apenas poucos. Mas meus dedos o atrapalham. Estão mais rígidos, tão gélidos que quase roxos. O frio parecia ser sutil, mas devagar me devora por dentro. O lápis luta para continuar e minha alma também: não fosse a necessidade do fim eu não pararia; ...
Há quatro livros sobre a mesa. Estou lendo dois, desejando ler o outro e, o que eu preciso mesmo ler está aberto à minha espera, mas eu o ignoro. Jogo fora mais um café que esfriou na xícara – carrego comigo essa deselegância de esquecer a bebida de lado quando ela está findando. Tenho levado comigo também uma bagagem pesada nas costas, sempre adiando a entrega. É que quando eu consigo me livrar do seu conteúdo, ele se enche de novo, cada vez mais rápido, cada vez mais pesado. Tenho adiado dias e dias o abrir dessa mala, carregada de letras, angústias, de sentimentos que ainda não têm nome. De tanto se encher, hoje ela começou a derramar. O óbvio me veio: só vou conseguir fazer o necessário depois de realizar o que já é inadiável. Só existo e respiro depois da escrita. A ignoro porque não é fácil se colocar contra a parede: é como beber o café frio esquecido. Superando minhas resistências, abri o computador. Esse processo de letargia para o despertar da máquina fez minha escrita par...