Está frio. Hoje, só por hoje, não li as notícias. Tenho medo
de me habituar ao caos. Tento seguir, contudo, meus passos estão letárgicos: o
receio do tropeço me intimida. À frente, um buraco. Em mim, a estranheza: um
buraco dentro do outro não parece ser a saída, mas o fim. Então, eu paro. E,
todo dia, que agora parece ser sempre domingo, às vezes quarta de cinzas, eu
hesito. Se sigo, caio, se fico, não vou a lugar algum. Por todos os lados,
morte e desespero. O horizonte utópico
está cada vez mais inatingível: até dos meus pensamentos está desaparecendo. Havia
um caminho, eu soube um dia, que me levaria para além dos escombros que caíram
no meu rio. Agora, sou apenas um regato poluído que está sem saber para onde
correr. Perdi as forças e a vontade de ir. Já me agarrei em tudo e em tanto,
mas minhas mãos cheias de lama estão se deslizando dos meus braços: não, eu não
posso mais me segurar. Se tropeço também é passo, posso dizer que, ainda
caindo, estou indo. Mas não sei para onde, nem quando. Só estou indo: no frio,
por entre o caos e dentro do medo.
O café fresco desce gentil, ao contrário das notícias de mortes, de cortes e do grito neoliberal que ainda ecoa e me sangra os ouvidos. Repito meu mantra diário: tudo passa. Vivenciamos o ápice do fracasso de um sistema com engrenagens enferrujadas, enxergamos com nitidez os abismos de desigualdade e a falta de humanidade. O espírito empreendedor tentou reificar trabalhadores/as e construir uma nova consciência, aliás, impedir o surgimento de uma classe unida, ciente de sua força. No auge da informalidade, do aumento de MEIs, de desregulamentações trabalhistas, de corte de bolsas, de ataque à pesquisa e ao ensino, do aumento da miséria, da poluição, da intensificação e precarização do trabalho, eis que surge a pausa. Não é apenas uma meio de sobrevivência: é para refletirmos, nos enxergamos como gente (que "nasceu pra brilhar e não pra morrer de fome"), resgatarmos afetos, repensarmos o sentido da existência e da necessidade de uma economia que sirva às pessoas em todas a...

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