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Regato



Está frio. Hoje, só por hoje, não li as notícias. Tenho medo de me habituar ao caos. Tento seguir, contudo, meus passos estão letárgicos: o receio do tropeço me intimida. À frente, um buraco. Em mim, a estranheza: um buraco dentro do outro não parece ser a saída, mas o fim. Então, eu paro. E, todo dia, que agora parece ser sempre domingo, às vezes quarta de cinzas, eu hesito. Se sigo, caio, se fico, não vou a lugar algum. Por todos os lados, morte e desespero.  O horizonte utópico está cada vez mais inatingível: até dos meus pensamentos está desaparecendo. Havia um caminho, eu soube um dia, que me levaria para além dos escombros que caíram no meu rio. Agora, sou apenas um regato poluído que está sem saber para onde correr. Perdi as forças e a vontade de ir. Já me agarrei em tudo e em tanto, mas minhas mãos cheias de lama estão se deslizando dos meus braços: não, eu não posso mais me segurar. Se tropeço também é passo, posso dizer que, ainda caindo, estou indo. Mas não sei para onde, nem quando. Só estou indo: no frio, por entre o caos e dentro do medo.

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