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Da janela




Há duas vassouras na sacada do prédio vizinho. Não há grades protetoras, nem arame, corda, nada, exceto o suporte que elas dão a si mesmas. Uma confiança aparente parece vibrar em suas cerdas gastas. As nuvens estão cinzentas e carregadas, mas os cabos magros debocham do possível vento, da provável chuva. Daqui, vejo o plástico rasgado que as reveste balançar. Confesso que a brisa me trouxe um cheirinho de medo, ou seria de pavor? Fixo meu olhar, tentando enxergar nas vassouras a fraqueza que imaginei sentir no ar. Não vejo nada. Não enxergo porque não existe. Sinto, porque a insegurança está sim, em algum lugar, mas não é lá, é aqui, em mim. Sou uma vassoura encostada na sacada, tirando a madeira e as cerdas.  Meus pés que se apoiam no chão tremem e escorregam.  Eu tento encaixar as costas, procurando uma posição de conforto e que permita sustentação. Dura pouco. O vento balança meus cabelos e parece me perfurar a pele. Uso as mãos para proteger a vista: do ar cortante, da altura medonha, da angústia que sai dos meus poros. As vassouras parecem não temer a queda. Quanto a mim, ao contrário, pareço ter caído incontáveis vezes só na minha imaginação. Não vou aguentar muito tempo. Minha pele está encharcada de medo. Quantas almas essas vassouras já viram despencar daqui?
Queda.
Pancada.
Mais uma vez, fui incapaz de me agarrar à sacada. Desconfiei das paredes que me seguravam. Desacreditei da confiança das vassouras, que ali permanecem por dias e dias. Me sabotei, de novo. Subo mais uma vez pelas escadas. Cabisbaixa, envergonhada, fracassada. Degrau por degrau, num movimento letárgico de castigo e dor. Tudo começa a pesar novamente. Meus joelhos têm dificuldade em sustentar meus pensamentos. Chego na sacada. As mesmas vassouras. Prometo suportar a posição estranha que a vida me colocou. Dura pouco.
De novo,
Queda.
Pancada.

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