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Kintsugi


Os fios dourados vão me tecendo.
Os fragmentos, secos e esfarelados, se juntam com as quedas das gotas de mar que o transpassar da agulha provoca. O trabalho, interminável, está feito. Por agora, feito.
Olho-me no espelho embaçado do banheiro, não me enxergo.
Os olhos repletos de nuvens carregadas anunciam trovoadas.
Tiro as pupilas do casulo.
Há sol em mim.
Tão brilhante, tão reluzente, tão viva, que sinto o sangue correr vibrante pelos fios de ouro que me bordam.
Respiro, entendo o meu tamanho. Estou mais reforçada pelas linhas do tempo, pelas histórias que me (re)fazem.
Sigo, atenta para não ser incauta.
À frente, estranhamente, vejo diferente a mesma estrada. Linhas de ouro me conduzem com mais facilidade pelo caminho que eu imaginava conhecer.
Apreendo os instantes. 
Experimento os velhos passos. 
Me redescubro e me percebo: sou o fio dourado, mas sou também a estrada.
Busco me pertencer. Sou minha e do tempo. Tão logo serei só um pó dourado levado pelo ar: então serei o vento.
Até lá, sigo tecendo.




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