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Brotei Bordô



Era manhã, mas a cor de cimento chapiscado fazia doer as vistas e a alma. Havia cinzas caindo tristemente por sobre a lama sangrenta que corria nas vias da cidade apagada: mais um dia pintado de gris e bordô. Portões se abrem: pés atrevidos tocam a calçada. A vista embaçada da rua ainda permite ver a luz amarela piscante do semáforo. Estranhos sons, outrora esquecidos, ecoam por além das brumas e parecem chegar cada vez mais perto, embora eu já os sinta aqui dentro. Um misto de humanidade estrangeira me embala e sensações apagadas se despertam. Meus pés estão molhados. A correnteza castanho-avermelhada começa a me banhar... vidas se coagulam em minha pele e o toque dos meus dedos na gosma grossa segue o ritmo das vozes sussurradas. Sinto um misto de agonia e curiosidade. Ouso dar os primeiros passos. As pernas, pesadas. Respiração acelerada. O coração pulsa sem vírgulas e pontos com medo e com pressa. A manhã anoitece em mim. Ouço pés ansiosos no córrego sangrento. Os vejo: olhos pesados, mas com um brilho que, meu deus, eu não lembrava existir. Nunca os vi, mas os reconheci. Os segui. A lama estava se tornando barro. Flores pintadas de bordô brotavam do chão. A história, manchada, estava sendo (re)escrita. Aos poucos, as cinzas cessavam. Atravessamos o sinal inoperante. Sentamos na praça abandonada. Éramos também flores, com pétalas faltantes, manchadas, agora parte de um jardim improvisado, mas sem raízes para ficar. Precisávamos marchar. Para além da manhã sangrenta, através da noite que crescia em nós. Correntes caem. Mais portões se abrem: na vizinhança e em mim. Levanto e corro para não me trancar de novo. O coro me segue: fogem das mesmas correntes. Estava feito: andávamos contra a direção do terror. Um medo maior crescia: éramos a própria tragédia anunciada. Tão cinzas e tão vermelhos que era preciso nascer de novo. Parei. Me vi no reflexo de outrem: meus olhos também brilhavam. Eu estava amanhecendo.

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