A mesma música está tocando pela décima vez, assim como meus
pensamentos e os gritos do vizinho. Nada é novidade por aqui, exceto as rugas e
a dúvida do que soa melhor: assobia ou assovia. Cedi à preferência do Aurélio. A angústia insistente de uma existência aparentemente
vazia e sem sentido, que constitui as tramas da vida humana, há dias me sufoca.
Me distraio. Me afasto. Me afogo. Não faz muito tempo e eu conseguia encontrar
razão no que hoje não vejo, pelo simples fato de que eu só encontro o que me
falta no outro. É doído estar numa ilha
vendo tantos se afogarem. Falta ar. Tem dias que me salvo, em outros, eu só
desisto, como hoje. Sem utilidade, trancada, voltada para dentro. Poderia ser
um momento grandioso, não fosse a falta: a falta de tantos que me constituem.
Sou apenas uma peça de papelão desgastada num quebra-cabeça gigante. Os prazos
para o trabalho solitário estão acabando... sem a força que faz minha
engrenagem girar, que encontro nas motivações, nos sorrisos e nos abraços, eu
vou hesitando. Mas cada feito é uma conquista silenciosa e vibrante. Porque é
um trabalho, feito pelas minhas mãos, por meus pensamentos. Porque no papel me
coloco. Me transfiro. Eu não posso lidar comigo sozinha. Preciso me compartilhar.
Só, eu me estilhaço... mais que os vidros da janela da sala que o vizinho
quebrou. Enquanto assobio a canção que se repete e me derramo na taça de vinho,
meus dedos, alcoolizados, se atrapalham. Também é difícil lidar com a multidão.
O café fresco desce gentil, ao contrário das notícias de mortes, de cortes e do grito neoliberal que ainda ecoa e me sangra os ouvidos. Repito meu mantra diário: tudo passa. Vivenciamos o ápice do fracasso de um sistema com engrenagens enferrujadas, enxergamos com nitidez os abismos de desigualdade e a falta de humanidade. O espírito empreendedor tentou reificar trabalhadores/as e construir uma nova consciência, aliás, impedir o surgimento de uma classe unida, ciente de sua força. No auge da informalidade, do aumento de MEIs, de desregulamentações trabalhistas, de corte de bolsas, de ataque à pesquisa e ao ensino, do aumento da miséria, da poluição, da intensificação e precarização do trabalho, eis que surge a pausa. Não é apenas uma meio de sobrevivência: é para refletirmos, nos enxergamos como gente (que "nasceu pra brilhar e não pra morrer de fome"), resgatarmos afetos, repensarmos o sentido da existência e da necessidade de uma economia que sirva às pessoas em todas a...

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