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Fragmentos




A mesma música está tocando pela décima vez, assim como meus pensamentos e os gritos do vizinho. Nada é novidade por aqui, exceto as rugas e a dúvida do que soa melhor: assobia ou assovia. Cedi à preferência do Aurélio.  A angústia insistente de uma existência aparentemente vazia e sem sentido, que constitui as tramas da vida humana, há dias me sufoca. Me distraio. Me afasto. Me afogo. Não faz muito tempo e eu conseguia encontrar razão no que hoje não vejo, pelo simples fato de que eu só encontro o que me falta no  outro. É doído estar numa ilha vendo tantos se afogarem. Falta ar. Tem dias que me salvo, em outros, eu só desisto, como hoje. Sem utilidade, trancada, voltada para dentro. Poderia ser um momento grandioso, não fosse a falta: a falta de tantos que me constituem. Sou apenas uma peça de papelão desgastada num quebra-cabeça gigante. Os prazos para o trabalho solitário estão acabando... sem a força que faz minha engrenagem girar, que encontro nas motivações, nos sorrisos e nos abraços, eu vou hesitando. Mas cada feito é uma conquista silenciosa e vibrante. Porque é um trabalho, feito pelas minhas mãos, por meus pensamentos. Porque no papel me coloco. Me transfiro. Eu não posso lidar comigo sozinha. Preciso me compartilhar. Só, eu me estilhaço... mais que os vidros da janela da sala que o vizinho quebrou. Enquanto assobio a canção que se repete e me derramo na taça de vinho, meus dedos, alcoolizados, se atrapalham. Também é difícil lidar com a multidão.

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