Há quatro livros sobre a mesa. Estou lendo dois, desejando
ler o outro e, o que eu preciso mesmo ler está aberto à minha espera, mas eu o
ignoro. Jogo fora mais um café que esfriou na xícara – carrego comigo essa
deselegância de esquecer a bebida de lado quando ela está findando. Tenho
levado comigo também uma bagagem pesada nas costas, sempre adiando a entrega. É
que quando eu consigo me livrar do seu conteúdo, ele se enche de novo, cada vez
mais rápido, cada vez mais pesado. Tenho adiado dias e dias o abrir dessa mala,
carregada de letras, angústias, de sentimentos que ainda não têm nome. De tanto
se encher, hoje ela começou a derramar. O óbvio me veio: só vou conseguir fazer
o necessário depois de realizar o que já é inadiável. Só existo e respiro depois
da escrita. A ignoro porque não é fácil se colocar contra a parede: é como
beber o café frio esquecido. Superando minhas resistências, abri o computador.
Esse processo de letargia para o despertar da máquina fez minha escrita parecer
técnica, mecânica demais. Letras escaparam, assim como minha vontade de
escrever quase se foi. Agora sinto-me fazer por obrigação: não fosse a
necessidade de dar passos adiante com um pouco mais de alívio e eu a teria
abandonado. Escrevo também com culpa, pois o livro aberto me olha, questionando
o que ele chama de procrastinação. Tudo bem também. Apesar de adiar, sei que é
um processo de cura. Talvez eu esteja interpretando errado e os olhares do
livro estejam querendo dizer outra coisa. Nunca saberei. De tudo, o que sei é
que o café esfriou de novo, que a hora está passando e eu também. Sou mais uma
peça compondo a sala: uma mesa, quatro livros, uma xícara, um computador e uma
máquina de formar palavras.
O café fresco desce gentil, ao contrário das notícias de mortes, de cortes e do grito neoliberal que ainda ecoa e me sangra os ouvidos. Repito meu mantra diário: tudo passa. Vivenciamos o ápice do fracasso de um sistema com engrenagens enferrujadas, enxergamos com nitidez os abismos de desigualdade e a falta de humanidade. O espírito empreendedor tentou reificar trabalhadores/as e construir uma nova consciência, aliás, impedir o surgimento de uma classe unida, ciente de sua força. No auge da informalidade, do aumento de MEIs, de desregulamentações trabalhistas, de corte de bolsas, de ataque à pesquisa e ao ensino, do aumento da miséria, da poluição, da intensificação e precarização do trabalho, eis que surge a pausa. Não é apenas uma meio de sobrevivência: é para refletirmos, nos enxergamos como gente (que "nasceu pra brilhar e não pra morrer de fome"), resgatarmos afetos, repensarmos o sentido da existência e da necessidade de uma economia que sirva às pessoas em todas a...

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