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Há quatro livros sobre a mesa. Estou lendo dois, desejando ler o outro e, o que eu preciso mesmo ler está aberto à minha espera, mas eu o ignoro. Jogo fora mais um café que esfriou na xícara – carrego comigo essa deselegância de esquecer a bebida de lado quando ela está findando. Tenho levado comigo também uma bagagem pesada nas costas, sempre adiando a entrega. É que quando eu consigo me livrar do seu conteúdo, ele se enche de novo, cada vez mais rápido, cada vez mais pesado. Tenho adiado dias e dias o abrir dessa mala, carregada de letras, angústias, de sentimentos que ainda não têm nome. De tanto se encher, hoje ela começou a derramar. O óbvio me veio: só vou conseguir fazer o necessário depois de realizar o que já é inadiável. Só existo e respiro depois da escrita. A ignoro porque não é fácil se colocar contra a parede: é como beber o café frio esquecido. Superando minhas resistências, abri o computador. Esse processo de letargia para o despertar da máquina fez minha escrita parecer técnica, mecânica demais. Letras escaparam, assim como minha vontade de escrever quase se foi. Agora sinto-me fazer por obrigação: não fosse a necessidade de dar passos adiante com um pouco mais de alívio e eu a teria abandonado. Escrevo também com culpa, pois o livro aberto me olha, questionando o que ele chama de procrastinação. Tudo bem também. Apesar de adiar, sei que é um processo de cura. Talvez eu esteja interpretando errado e os olhares do livro estejam querendo dizer outra coisa. Nunca saberei. De tudo, o que sei é que o café esfriou de novo, que a hora está passando e eu também. Sou mais uma peça compondo a sala: uma mesa, quatro livros, uma xícara, um computador e uma máquina de formar palavras.


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